3 de mar de 2009

O que o seu médico gostaria de lhe dizer

Você já se perguntou o que ele realmente está pensando enquanto escuta a sua história?
Por Josiane Nogueira


O tempo de um médico muito precioso, por isso precisamos aproveitar cada minuto da consulta. Mas será que fazemos isso mesmo? Para descobrir, elaboramos uma lista com frases que expressam algumas preocupações comuns aos médicos. A seguir, enviamos essa lista por e-mail a médicos de todo o país pedindo que eles revelassem com sinceridade o que realmente gostariam de dizer aos seus pacientes se pudessem. Eis os resultados:


63% dos médicos gostariam de dizer: Se for atrasar ou faltar consulta, por favor, me avise com antecedência. Médicos não gostam de esperar pelos pacientes, assim como pacientes também odeiam esperar por médicos. Ás vezes, problemas acontecem. Um paciente exige mais atenção, ou chega atrasado consulta, o que pode tumultuar a agenda. Por isso, os outros pacientes acabam sendo prejudicados, diz o Dr. Fábio Morato Castro, diretor da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia. E ainda pior quando o paciente perde a consulta inteira. A falta sem aviso é mais grave, pois demonstra desconsideração pelo médico e pelos outros pacientes que necessitavam da consulta naquele dia, acrescenta o Dr. Fábio. O melhor a fazer: Pacientes que não puderem comparecer devem cancelar a consulta o mais cedo possível.


55% dos médicos gostariam de dizer: A consulta é única. Não traga outra pessoa e me peçe para examiná-la. Provavelmente não existe um único médico que já no tenha passado por esta situação. Acontece quase sempre de o acompanhante do paciente pedir para dar uma olhadinha num exame que ele trouxe, ou pedir para aferir a pressão, ou até fazer uma consulta rápida, conta o Dr. Jos Edmilson de Farias, cirurgião vascular e angiologista. Um bom médico não deve dar uma olhadinha. Seja qual for o problema, precisa fazer uma análise clínica completa, acrescenta ele.


53% dos mdicos gostariam de dizer: Não posso renovar uma prescrição por telefone. Preciso que você venha ao consultório. Como no Brasil muitos medicamentos são vendidos sem a necessidade de renovação da receita, alguns pacientes continuam comprando e tomando os remédios por conta própria, sem voltar para uma consulta de reavaliação, explica o cardiologista Luiz Geluda. Mas ele afirma que o retorno do paciente ao consultório durante o tratamento indispensável. Muitos passam meses, até um ano, sem voltar ao consultório. É importante verificar a eficácia do medicamento, se é preciso fazer alguma alteração de dosagem, se o remédio está causando algum efeito colateral. E esta avaliação clinica deve ser feita pessoalmente, não por telefone. Até porque, muitas vezes, precisamos refazer exames e ajustar medicamentos, acrescenta o médico.


49% dos médicos gostariam de dizer: você não está doente. Só quer um atestado médico. Enquanto a maioria dos pacientes é honesta, existem aqueles que saem em busca de um atestado médico sem estarem realmente doentes. Há casos em que o paciente tenta pagar o médico pelo documento. A maior parte dos trabalhadores se comporta de forma honesta. Mas, em algumas situações, existem simulações, diz o Dr. Cid Carvalhaes, neurocirurgião e Presidente do Sindicato dos médicos de Só Paulo (SIMESP). Dificilmente o médico é enganado. Quando percebo uma simulação, procuro encara-la como uma alteração de natureza comportamental, o que não deixa de ser uma forma de doença. Se a situação se mostra oportunista, advirto o paciente sobre sua postura condenável e me nego a dar o atestado, alerta ele. O melhor a fazer: Seja honesto com seu médico. Se você estiver doente, diga; se não, deixe a atuação para os atores.


44% dos médicos gostariam de dizer: Seja franco. Se você não tomou os medicamentos prescritos, diga. Muitos pacientes retornam ao consultório afirmando que não apresentaram melhora e depois dizem que ainda não começaram o tratamento, revela o Dr. Fábio. Então, qual o motivo para terem voltado? Por que não seguiram o que recomendei antes de retornarem consulta? Medicamentos tem um tempo certo para começar a fazer efeito. Numa boa relação médico-paciente, isso deve ser espontaneamente informado. Além disso, alguns pacientes tem dificuldade de aceitar a doença e de aderir ao tratamento prescrito, recorrendo a automedicação ou não seguindo a prescrição simplesmente, diz o Dr. Telmo Kiguel, coordenador do Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria. O melhor a fazer: Diga a seu médico exatamente o que você está fazendo. Para tomar boas decisões, avisa o Dr. Fábio, o médico precisa do máximo de informação que o paciente possa dar.


38% dos médicos gostariam de dizer: não espere o fim da consulta para falar sobre o seu problema. É comum ver um paciente, já girando a maçaneta para sair da sala, se voltar e dizer: Ah! Me lembrei de uma coisa... E só então relatar a queixa que o fez de fato procurar o médico, diz Renata Fregonezi, médica de Família de Só Paulo e diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade. Ela compreende por que as pessoas costumam deixar o pior por último. Muitas procuram o médico sem saber qual o problema real. Pode existir ainda medo de uma doença incurável e dificuldade de comunicação com o médico, explica. Alguns profissionais ficam em dúvida sobre o que fazer quando os pacientes tem muitas queixas. A Dra. Renata sugere criar uma lista de problemas. O médico deve analisar a lista e, com o paciente, estabelecer um plano de tratamento por prioridades. O melhor a fazer: Pergunte ao médico como ele gosta de trabalhar. Se você levar uma lista de reclamações, não espere que ele vá lidar com todas em uma única consulta.


37% dos médicos gostariam de dizer: Explique os seus sintomas com exatidão: quando começaram, o que são e em que frequencia acontecem. É importante observar o paciente, como ele se comporta, como se expressa, pois tudo tem um significado. Mas de fato existem pacientes com um estado mental confuso, que querem falar de tudo ao mesmo tempo, comenta Maria Stela De Simone, clínica-geral e especialista em Medicina Aiuvérdica. Nestes casos, é preciso direcionar o paciente, ajudando-o na organização das idéias. Isso torna o diagnostico mais preciso e deixar mais claro o caminho terapêutico a ser seguido. Ela aconselha aos pacientes que, antes da consulta, falam uma lista com as queixas principais, anotem os sintomas, quando começaram, se já fizeram algum tratamento e, principalmente, se estão tomando algum medicamento. Sem medo de dizer o que estão sentindo, acrescenta ela.


25% dos médicos gostariam de dizer: Por favor, tome um banho antes da consulta. Este tipo de situação pode acontecer mais em hospitais da rede pública, que atendem pessoas humildes, muitas vezes vindas de longe. Em um caso isolado, por exemplo, o paciente pode ter tido uma incontinência urinária e se sujado. Eu pergunto o que houve, se ele teve algum problema, sempre com muito cuidado. Todos estamos sujeitos a uma situação assim, diz o Dr. Paulo Vieira da Costa Lopes, diretor do Instituto de Ginecologia da UFRJ. Mas, se o caso se repetir, com muito jeito pergunto se ele não teve tempo de tomar um banho. E, com delicadeza, peço a uma enfermeira ou atendente que providencie a higiene do pacienteacrescenta ele. O melhor a fazer: Certifique-se de estar em boas condições de higiene antes de se consultar.


24% dos médicos gostariam de dizer: Por favor, não me faça ler as páginas que você imprimiu da Internet. Uma pesquisa realizada em 2005 pela consultora Wilma Madeira, resultado de sua tese de mestrado defendida na Universidade de Só Paulo (USP), indica que 83,6% das pessoas buscam informação sobre saúde na Internet antes de irem ao médico. O estudo Navegar é preciso: avaliação dos impactos do uso da Internet na relação médico-paciente revela que, para 67% das pessoas, as informações vindas da rede servem para auxiliar a decisão sobre procedimentos a serem feitos; enquanto apenas 1,56% afirmou não terem utilidade. Para o Dr. Fernando Almeida, professor de Urologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, procurar informações na Internet é válido, pois pode ajudar o paciente a conhecer melhor seu problema e até dispor de elementos para questionar o médico. Mas ele recomenda cautela. Existe muita informação equivocada na rede, inclusive sugestão de novos tratamentos que não tem comprovação científica, afirma ele. Quando o paciente traz material impresso da Internet e me pede para ler, digo que não. Mas falo para ele anotar as dívidas que teve ao ler e me proponho a esclarecê-las, acrescenta. O melhor a fazer: Peça ao médico que lhe indique sites confiáveis. E, se você for pesquisar na Internet por conta própria, observe se a fonte das informações tem credibilidade.


19% dos médicos gostariam de dizer: você precisa perder peso. Segundo a Dra. Claudia Cozer, endocrinologista e diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), dois terços dos brasileiros estão acima do peso e um terço tem obesidade. Ela acha que a maioria das pessoas com excesso de peso precisa entender que essa patologia tem uma causa genética (não modificável) e outra ambiental, que pode ser alterada pela mudança de comportamento e estilo de vida. Se o paciente não enxergar que o ganho de peso é a base de uma série de doenças que interferem na sua qualidade de vida, estar fadado a fazer tratamentos diversos para cada complicação que venha a apresentar. E vai colecionar remédios e médicos sem solucionar o problema principal, diz. A Dra. Claudia acrescenta que muitos pacientes não gostam nem de ouvir o médico comentar que estão com excesso de peso. Eles sabem que é necessário um esforço pessoal para reverter a situação. Muitos preferem negar a doença para não terem de fazer modificações no estilo de vida, como alimentação saudável e prática de atividade física. O melhor a fazer: Admitir que estar acima do peso é uma ameaça à saúde.


Quem é o Dr. House? Imagine ser atendido por um médico muito competente, mas antipático no trato com os pacientes. A experiência, inusitada na vida real, é sucesso na ficção: a série Dr. House é líder de audiência na TV paga brasileira desde que estreou, em abril de 2005, no Universal Chanel. O Dr. House diz o que pensa. Essa atitude causa admiração do público, analisa Paulo Barata, diretor do canal. Na série, que também passa na TV Record, o protagonista, Dr. Gregory House (Hugh Laurie), e sua equipe se empenham em desvendar os sintomas dos pacientes. O raciocínio nada convencional do médico resulta em diagnósticos brilhantes. No fim, mesmo desprovido de boas maneiras, todos tiram o chapéu para o anti-social Dr. House.

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